Agrupamento Escolas D. Miguel  de Almeida - Abrantes
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"Há muitos anos que, em cada primavera, me proponho a tarefa de compor um Credo. Quando era mais jovem, o meu Credo ocupava páginas e páginas, de tanto que me preocupava em cobrir todas as áreas, sem deixar nada pendente.

 

Com o tempo, o Credo abreviou-se. Recentemente, resolvi que tinha de caber numa única página e que só podia usar palavras simples, mesmo sabendo que corria o risco de parecer idealista e ingénuo.

 

A ideia de procurar ser breve ocorreu-me num posto de gasolina. Estava a abastecer o meu velhíssimo automóvel com a gasolina mais pura, de alto teor de octanas. Combustível de luxo. O carro protestou: começou a ratear nos cruzamentos e a vazar combustível pelas esquinas.

 

Entendi, logo, o que estava a acontecer. De vez em quando sinto-me assim, como o tanque do meu carro: excesso de informação, excesso de complexidade, e eu começo a ratear pelas esquinas – um ratear existencial pelos cruzamentos da vida, justamente nos locais e horas em que tenho de tomar as mais difíceis decisões, e inevitavelmente descubro que ou sei demais, ou sei de menos.

 

Foi quando descobri que já sei praticamente tudo o que é necessário saber para viver com dignidade – o que, afinal, não é assim tão complicado. Já sei quais são as coisas que realmente contam. E de facto sei já há muito tempo, porque tenho vivido essas coisas.

 

Eis o meu Credo:

 

Tudo que eu preciso saber sobre como viver, o que fazer, e como ser, aprendi no jardim-de-infância. A sabedoria não estava no topo da montanha mais alta, no último ano de um curso superior, mas na caixa de areia do recreio.

Vejam o que eu aprendi:

 

Dividir tudo com os companheiros.

Jogar conforme as regras do jogo.

Não bater em ninguém.

Guardar os brinquedos onde os encontrava.

Arrumar a “bagunça” que eu mesmo fazia.

Não tocar no que não era meu.

Pedir desculpas se machucava alguém.

Lavar as mãos antes de comer.

Puxar o autoclismo.

Biscoito e leite fazem bem à saúde.

 

Fazer de tudo um pouco –

estudar,

pensar e desenhar,

pintar,

cantar e dançar,

brincar e trabalhar,

de tudo um pouco -

todos os dias.

Dormir uma soneca todas as tardes.

Ao sair pelo mundo, ter cuidado com o trânsito e...

...ficar sempre de mãos dadas com o companheiro.

 

 

Pense na sementinha de feijão, plantada no copo de plástico: as raízes vão para baixo e para dentro, e a planta cresce para cima – ninguém sabe como ou por quê, mas a verdade é que nós também somos assim.

 

Peixes dourados, porquinhos-da-índia, esquilos, hamsters e até a semente no copinho de plástico – tudo isso morre. Nós também.

 

E lembre-se ainda dos livros de histórias infantis e da primeira palavra que você aprendeu, a mais importante de todas: Olhe!

 

Tudo que você precisa mesmo saber está por aí, em algum lugar. A regra de ouro, o amor e os princípios de higiene. Ecologia e política, igualdade e vida saudável.

Escolha um desses itens e elabore-o em termos sofisticados, em linguagem de adulto; depois aplique à vida da sua família, ao seu trabalho, à forma de governo do seu país, ao seu mundo, e verá que a verdade que ele contém mantém-se clara e firme.

 

Pense o quanto o mundo seria melhor se todos nós – o mundo inteiro – fizéssemos um lanche de biscoito com leite às três da tarde e depois nos deitássemos, sem a menor preocupação, cada um no seu colchãozinho, para uma soneca. Ou se todos os governos adoptassem, como política básica, a ideia de recolocar as coisas nos lugares onde estavam quando foram retiradas e de arrumar a “bagunça” que tivessem feito.

 

 E é verdade, não importa quantos anos você tenha: ao sair pelo mundo, vá de mãos dadas com o companheiro".

Robert Fulghum

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